domingo, 22 de outubro de 2017

SERES HUMANOS FRUSTRADOS

Filmes pornô e Disney são responsáveis pelos seres humanos mais frustrados que conheço, diz cartunista
Onde diabos está o meu príncipe encantado, pergunta moça.
Onde diabos está minha prostituta insaciável, pergunta rapaz. 
E você, onde está? Concorda com o cartum? (às vezes eu falo furustarados, você não?)

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

DICAS PARA OS DOIS DIAS QUE PASSAREMOS EM BOGOTÁ

Como todo mundo que lê o bloguinho sabe, e como estou contando ansiosamente os dias (agora que tá tendo furacão no Caribe bem menos, admito), em dezembro irei pra Cuba. Já publiquei dicas maravilhosas da Martha sobre o assunto. 
Acontece que, tanto na ida quanto na volta, vamos fazer um pit stopzinho em Bogotá, Colômbia, que não conhecemos. Vai ser pouco mesmo, um dia na ida, e um dia na volta. Mas claro que vamos aproveitar pra ver o máximo possível da cidade, que tem fama de ser bonita. A Natali, de Portugal, fez questão de enviar várias sugestões. Fala, Natali!

Quando fui morar fora do Brasil, morei primeiro na Venezuela (Caracas), depois me mudei pra Bogotá, que eu amo de paixão, tenho imensa saudade e carinho por essa cidade. Te mando dicas com enorme alegria.
Vocês ficarão menos de três dias, certo? 
Será pouco, por isso acho que localização é super importante! Sugiro que se hospedem nos arredores do parque de La 93, pois é uma região em que vcs poderão fazer coisas a pé, tem lugares legais pra comer, ou na região da zona T, onde também tem transporte fácil, muita movimentação, centros comerciais etc. [Seguimos a dica da Natali e já reservamos, via Airbnb, um quarto na 93 pra ficar na ida e outro na zona G pra volta. Baratinho, R$ 185 os dois].
Certo, agora o que eu sugiro como imperdível:  
1) passear no centro histórico da Candelária, a partir da praça Simon Bolivar, e visitar o museu Botero e o museu do Ouro. Caso vcs gostem de museus, são dois que não se encontram em nenhuma outra parte do planeta. O acervo de peças do museu do Ouro é belíssimo e não existe outra oportunidade de ver as obras do Botero de um modo tão intimo e variado como no museu com seu nome. Ademais, esses museus são pequenos, nada que tome horas e horas do passeio pelo Centro. Vale muito mesmo. 
Pra descansar dos museus, tem um café delicioso no Centro Cultural Gabriel Garcia Marquez, que tem uma livraria muito boa, ótima para conhecer e comprar uns livros. Tudo isso dá pra fazer a pé, bem tranquilo.   
2) subir o cerro Monserrate. Tem um teleférico que leva lá pro alto, a vista da cidade é muito legal, o lugar é bonito de se ver! Dica importante: subam com água e algo salgado pra comer, tipo um biscoito de água e sal; acontece que são mais de 3 mil metros de altitude. A primeira vez que subi passei um pouco mal por conta disso, das outras vezes que subi para levar amigas que estavam de visita, subi com líquido e coisas salgadas e ajudou muito! Desidrata um pouco e a água ajuda muito, e o biscoito salgado estabiliza a pressão. Os restaurantes lá do alto são caros e realmente a comida não vale o preço cobrado.
3) passear pelo parque de La 93, que é muito agradável. Dá pra ir caminhando até a zona T (ou vice versa) pela parte de dentro dos bairros e não pelas avenidas principais, sempre uma reta só, basta perguntar para alguém a direção correta. 
Vcs saberão qual é a avenida principal pelo volume de ônibus e carros, daí é só andar pelas paralelas, ou pela principal se quiserem ver o comércio. É fácil se localizar em Bogotá porque as ruas são numeradas, então basta perceber a numeração para saber a quantas quadras estão do hotel, por exemplo.
Essas duas regiões têm muitos restaurantes, cafés, bares, pubs etc.
Outra região deliciosa e famosa pela boa comida (Bogotá é ótima pra se comer bem) fica na zona G, só que de modo geral são opções mais caras, mas te mando aqui duas excelentes e saborosas exceções da região:  
El Khalifa, comida libanesa boa e farta. Essa rede de comida também tem em outras regiões da cidade, e trata-se de comida tradicional mesmo, feita por imigrantes, nada no estilo Habib's (sei disso porque meu marido é neto de libaneses e adoramos essa culinária). 
Outra deliciosa opção é a pizzaria Júlia. Íamos todos os fins de semana, uma delícia e ambiente gostoso, pizzas no estilo napolitano.  
Outro lugar imperdível e 100% colombiano para comer no estilo BBB (bom, bonito e barato) é o Crepes e Waffles. 
Dá pra tomar café da manhã, almoçar ou jantar e vocês nunca sairão decepcionados! Crepes incríveis, bons sorvetes, talvez o melhor sorvete da cidade. Além disso tudo, essa rede colombiana tem uma política de contratação de mulheres muito interessante, acho que vc vai gostar de saber. Aqui explica um pouco e de quebra tem fotos das comidas.
Outras comidas típicas para provar em Bogotá: o ajiaco (delicioso), 
uma sopa com base de frango e batatas variadas, uma maravilha; a arepa é uma tortinha de milho branco recheada de vários modos (tem também a cachapa, que é de milho amarelo, eu gosto mais; a cachapa é mais venezuelana, mas dá pra encontrar em Bogotá); patacons, que são bananas fritas em rodelas (muito saborosas). Aji é a pimenta colombiana, tem base de coentro e tomate, pra quem gosta de picante (como eu), é muito boa!
Outra dica que não dá pra deixar passar é a rede de hambúrgueres El Corral, acho os hambúrgueres incríveis! Estão por toda cidade, vale a pena provar! Vem acompanhados de cebolas fritas e suco de mandarina (nossa tangerina ou mexerica).  
Tô falando muito de comida, né? Sou meio Magali, viu, Lolinha? Adoro desbravar as comidas dos lugares.
Voltando pra cidade: tem um bairro em Bogotá que se chama Usaquen, parece um bairro do interior, gostoso de andar de dia ou de noite, tem um cinema de rua super legal com bar dentro, que eu frequentava sempre.  
O parque de La 93 também tem cinema de rua, se quiserem ver um filme do circuito alternativo aos cines de shoppings.
Caso sobre tempo, a uns 40 kms mais ou menos de Bogotá, fica a Catedral de Sal Zipaquira. 
É um passeio ótimo, os hotéis provavelmente têm esquema para ir e voltar de bus. A catedral fica dentro de uma mina de sal, com esculturas incríveis feitas de sal. Dá pra fazer o passeio guiado, que é bacana pra conhecer a história da catedral.
Olha, essas são as dicas de uma apaixonada pela cidade. Tenho imensa saudades da Colômbia. Pena que minhas melhores amigas da época em que la estive já não moram mais na cidade, ambas engravidaram e agora estão no México e na Suécia. Se ainda estivessem por lá, tenho certeza que hospedariam vcs com o maior carinho.
Se puder ajudar com mais alguma dica, dúvida, localização para se hospedar, links de lugares, é só me dizer! Boa viagem e aproveitem muito!
Cuba acho que você não vai querer voltar de lá, de tão surpreendente que é. 
Fui por uma semana e gostei demais, visitei uma escola pública e realmente é tudo tão bem cuidado, dá pra perceber a dedicação dos educadores no espaço escolar.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

GUEST POST: "FIZ UM ABORTO E QUERO AJUDAR"

Recebi este relato da B. E, como precisamos falar sobre aborto, e como surgiu a campanha "Eu vou contar", publico aqui o relato. 

Lola, acabei de realizar um aborto. Tá dando tudo certo. Comecei a escrever um relato extenso, mas o que eu quero mais é ajudar outras mulheres. Aborto é uma das nossas pautas mais urgentes, e só quem passa por essa situação tem noção do tamanho que é. Gostaria de deixar algumas dicas simples, baseadas na minha experiência. Gostaria que as pessoas lessem essas dicas mesmo sem estar grávidas. Lerem tipo leitura de banheiro, leitura rápida, leitura de textão de facebook. Ao passarmos por essa situação horrível, eu e meu namorado queremos ajudar mulheres a terem calma nesse momento tão delicado.
1. Fale com seu(a) companheiro(a)
Eu e meu namorado já havíamos concordado: se engravidássemos, abortaríamos. Eu sabia das opiniões dele, e ele das minhas. Isso tornou tudo mais fácil, porque cansei de ouvir histórias de que um queria e outro não, tornando tudo bem mais complicado. Não tenha vergonha de dividir opiniões "tabu" com seu/sua companheiro(a). Isso é sinal de um relacionamento saudável e quando rolar m*rda, vocês estarão tranquilos com muitas certezas.
2. Leia, leia, leia
Eu sempre li sobre aborto. Sempre concordei com a legalização e sempre me interessei. Lia notícias, ficava p*ta da cara com mulheres que estavam com zika e pediam remédios do exterior e os correios confiscavam. Fico triste de ver mulheres enfiando agulhas em suas vaginas para pegarem uma infecção e irem mais rápido a um hospital. Com mulheres desesperadas que tomam comprimidos de farinha vindos do Paraguai. Mulheres que vão pra fora do país para fazerem uma cirurgia cuidadosa. Li também como funcionavam as ongs Women on Waves, Aborto na Nuvem, Women Help Women e por aí vai. Sabia quantos comprimidos de Cytotec tinha que usar. Sabia das dores, que podia ter complicação. Leia muito. Mesmo se você ler tudo, ainda terá dúvidas. Se informe.
3. Pense, pense, pense
Eu tinha muita certeza do que não queria: um filho. Pelo menos agora. Fiquei sensível pensando em como o bebê ia ser lindo, como minha família ficaria feliz, como eu e meu namorado formaríamos uma família linda. Andando na praia pensei no que eu queria. Ignorando o mundo, fingi que não tinha simplesmente ninguém. A resposta veio rápida na minha cabeça. Sei que para muitas pessoas não é bem assim. Tire um dia ou dois para pensar com calma e sozinha.
4. Respeite seu corpo
Tem MUITOS(AS) vendedores(as) absurdos na internet. Na moral. Não é difícil você encontrar vinte vendedores de cytotec em um dia, alegando serem super profissionais. Óbvio que não são. Procure referência. Um cytotec falso não vai fazer efeito e você vai perder uns 700 reais na brincadeira. Um cytotec mal ingerido pode fazer você se ferrar de dor, precisar ir ao hospital (e aí já viu), se expor a infecções e por aí vai. Compre de quem você ouviu recomendações e se sentiu segura.
6. Tenha calma, mas tenha pressa
Descobri que estava grávida muito cedo. Tipo três semanas depois da fecundação. Mesmo assim, eu e meu boy corremos, falamos com deus e o mundo e em menos de uma hora e meia tínhamos altos contatos. O tempo passa super devagar nessa tensão maluca de gravidez não desejada. Falo pra ti: pensa com calma, pesquisa bem com quem você vai abortar, mas pensa rápido. Quanto mais tempo demorar pra fazer o aborto, pior vai ser, mais dor você vai sentir, mais difícil pra expulsar o feto vai ser. Tente agilizar tudo em torno de uma semana. Vai ser melhor, juro. Se você fizer em um médico, provavelmente ele vai pedir uma grana alta à vista. Pegue empréstimo, faça alguma coisa. Só não fica parada que o que está dentro de você só vai aumentar.
7. Não é barato
Olha, é tudo relativo. Fiz com um médico e deu mais de R$ 5 mil. Só consegui essa grana porque meu namorado tinha. Havia pesquisado com uma vendedora de Cytotec e foi R$ 700 com seis comprimidos. Se dinheiro não for exatamente o maior problema, vai com um médico. Procure indicações. Acredite: tem mais mulheres perto de você que abortaram do que você desconfia. Aproximadamente 1/5 das mulheres com até 40 anos fizeram pelo menos um aborto. 
8. Você não está sozinha
Óbvio, o maior problema é teu. As dores serão suas, o peso na consciência será seu. Mas eu juro que você não tá sozinha, sério. F*da-se se teu namorado é um bosta, se tua família não te apoia e se todos teus amigos são crentes. Tem uma rede de mulheres disposta a te ajudar.
9. Descanse
No caso de você abortar, talvez você sinta apenas duas coisas: alívio e dor. Desculpa, vai doer. Vai ser a pior cólica da tua vida. Mas na moral, nada comparável à dor de uma maternidade indesejada. Você vai pensar na carinha que teu bebê poderia ter. É difícil mesmo. Descansa teu corpo e tua cabeça. E pensa que tu é livre.
PS: Escolham bem os companheiros de vocês. Meu namorado foi o meu anjo da guarda. Existem homens bons no mundo.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

E SE NÓS SIMPLESMENTE ACREDITÁSSEMOS NAS MULHERES?

Confie/acredite nas mulheres, uma necessidade

Vinícius, leitor do blog há três anos, me recomendou e traduziu este ótimo artigo escrito por Jessica Valenti para a Marie Claire americana.

Uma das razões pelas quais Harvey Weinstein foi capaz de alegadamente atacar mulheres por 30 anos é que as vítimas temiam que ninguém as ouvisse caso elas se apresentassem.
Acreditar em mulheres soa bastante simples; não deveria ser uma ideia radical. Mas em um país –- um mundo, na verdade –- onde as mulheres são rotineiramente dispensadas quando falam, algo tão básico como confiar em nós pode ser revolucionário.
Imagine se nossa cultura acreditasse nas mulheres que denunciam assédio sexual, abuso e agressão. Se acreditasse, talvez as vítimas do suposto comportamento predatório de Harvey Weinstein não temeriam denunciá-lo por conta própria. A atriz Katherine Kendall explicou ao The New York Times  que ela não contou a ninguém sobre o assédio que sofreu nas mãos de Weinstein porque “Eu nunca trabalharia de novo e ninguém iria se importar comigo ou acreditar em mim”. Se as mulheres soubessem que seriam tão acreditadas quando denunciassem como, digamos, um homem é, isso significaria não apenas que mais mulheres se sentiriam seguras denunciando –- mas que abusadores não se sentiriam tão protegidos.
Nadador de Stanford Brock Turner
deixou a prisão após três meses.
Sua vítima de estupro ainda está
cumprindo sua sentença
Imagine se mulheres como a vítima de Brock Turner -- que falou tão eloquentemente no julgamento de seu agressor -- fossem ouvidas, não apenas pelo público que leu sua declaração viral, mas por policiais e juízes e legisladores. “Eu não sou apenas uma vítima alcoolizada em uma festa de fraternidade encontrada atrás de uma lixeira”, ela disse. Não que ela não tenha sido tratada como uma. 
Imagine se nós tivéssemos uma administração que acreditasse em especialistas e vítimas em vez de acreditar em grupos antifeministas abusivos que (erroneamente) insistem que mulheres mentem quando se trata de agressão sexual.
Imagine se alguém tivesse acreditado na primeira mulher que acusou Bill Cosby de estupro. Imagine se não viessem outras mulheres depois dela por conta isso. 
Entretanto, acreditar nas mulheres vai além de histórias de agressão e assédio. 
Como os médicos levam a dor
das mulheres menos a sério
Imagine se nós acreditássemos nas mulheres quando elas dizem que estão sentindo dor. Estudos mostram que médicos e hospitais levam as dores das mulheres menos a sério e as tratam menos agressivamente do que as dores dos homens. Para dor abdominal aguda, por exemplo, homens esperam em média 49 minutos antes de receberem medicação; mulheres, no entanto, esperam uma média de 65 minutos. Talvez se médicos acreditassem nas mulheres quando elas dizem que sentem dor, nós não ouviríamos tantas histórias de mulheres passando anos em agonia, esperando alguém para diagnosticar suas endometrioses ou fibromialgias.
Imagine se legisladores acreditassem nas mulheres quando elas dizem que não estão prontas para ter filhos ou que merecem o direito de escolher quando engravidar. Pense em todo o sofrimento que poderia ser evitado se as pessoas que supostamente nos representam realmente acreditassem que mulheres sabem o que é melhor para seus corpos e suas famílias. 
George Tiller foi um médico piedoso
que arriscou sua vida para ajudar
mulheres. Ele foi assassinado por
um terrorista pró-vida
Há um motivo pelo qual o Dr. George Tiller -- assassinado por realizar abortos -- repetiu várias e várias vezes: “Acreditem nas mulheres”. Ele entendia que as decisões complicadas que mulheres fazem a respeito de sua saúde e de suas vidas cabem a elas. A mais ninguém. Imagine se políticos acreditassem na mesma coisa; o que isso significaria para mulheres que são constrangidas, forçadas a enfrentar tribulações e a colocarem-se em perigo para seguir leis anti-escolha arbitrárias e perigosas. 
- Eu não confio nas mulheres!
- É! Muitas delas querem se
casar com homens
Imagine se nós acreditássemos nas mulheres que dizem que seus namorados ou maridos as machucam. Imagine se impossibilitássemos que esses homens tivessem armas. Nesse momento, 35 estados nos EUA permitem a um homem possuir uma arma mesmo que ele tenha sido condenado por violência doméstica ou recebido uma ordem de restrição. E se nós acreditássemos nas mulheres que dizem que seus parceiros colocam suas vidas em perigo? Quantas mulheres a mais estariam vivas porque nós acreditamos nelas?
Imagine, se você puder suportar isso, que a América tivesse acreditado em Hillary Clinton. Antes da eleição de 2016, várias pesquisas de opinião mostraram que eleitores achavam Donald Trump -- um homem que mente tão naturalmente como respira -- mais confiável que Clinton. O primeiro anúncio de campanha de Trump continha uma mentira a cada quatro segundos; e ele contou pelo menos uma mentira todos os dias nos primeiros 40 dias de sua presidência. Ainda assim, de alguma forma, era Clinton quem não era confiável. Pense em quão diferentes nossas vidas seriam nesse momento se essa mulher, em quem muitos não acreditaram, estivesse no comando do país. 
Se o feminismo não fosse poderoso
e influente, as pessoas não gastariam
tanto tempo desprezando-o -
Jessica Valenti
Eu não acho que isso deva ser um exercício de otimismo sonhador. É verdade que ainda não atingimos o ponto de virada em que as pessoas acreditam amplamente nas mulheres, ainda não. Mas à medida que mais e mais mulheres denunciarem, que pessoas começarem a acreditar que o que elas falam é verdade, nós podemos e iremos chegar a esse ponto. Até lá, mulheres, eu acredito em vocês.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

A REVOLUÇÃO VIVE: CEM ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA

Em “A Caixa de Pandora e a polícia voluntária”, um dos capítulos do excelente livro Os Homens Explicam Tudo para Mim, Rebecca Solnit diz que, depois que a caixa de Pandora (que na realidade era um jarro) foi aberta, não pode mais ser fechada.
“O fato de que uma mudança tão grande", diz ela, referindo-se à emancipação das mulheres, "tenha sido realizada em quatro ou cinco décadas é incrível; o fato que nem tudo tenha mudado de maneira permanente, definitiva, irrevogável não é um sinal de fracasso”.
E uma coisa influencia outra. Por exemplo, complica falar da Revolução Russa de 1917 como um fracasso. O pensador anarquista David Graeber diz: “a Revolução Russa de 1917 foi uma revolução mundial; em última instância, foi responsável também pelo New Deal [as medidas econômicas e sociais realizadas por Roosevelt na década de 30 nos EUA] e pelos Estados do bem-estar social na Europa, tanto quanto pelo comunismo soviético. 
"A última da série foi a revolução mundial de 1968 – que, tal como em 1848, estourou em quase todos os lugares, da China ao México, e não tomou o poder em nenhum lugar, mas mesmo assim mudou tudo. Foi uma revolução contra a burocracia estatal e a favor da inseparabilidade da libertação pessoal com a libertação política, e seu legado mais duradouro provavelmente será o nascimento do feminismo moderno”.
Sim, definitivamente: assim como há ligações estreitas entre o feminismo e a revolução socialista (já que o feminismo é, por si só, uma revolução), também há ligações entre o capitalismo e o machismo. Para Solnit, o capitalismo “encarna o pior que há no machismo, enquanto destrói o que há de melhor na Terra”.
Apesar de todas as forças conservadoras, as mulheres nunca se renderam. Solnit é otimista. Ela diz que tudo mudou, e que não há volta. “Naquela época [anos 1960], argumentar que as mulheres deveriam ser iguais aos homens perante a lei era uma posição marginal; hoje, argumentar que não devemos ser iguais é uma posição marginal nesta parte do mundo, e a lei está, de modo geral, do nosso lado”.
(Pessoas queridas, vou aproveitar o post para tentar de novo sortear entre quem deixar algum comentário aqui o incrível livro de Solnit. Mas vocês precisam ficar atentxs! Quem ganhar precisa me mandar um email com o endereço no mesmo dia, por favor!).
Agora é Outubro Vermelho, mês da Revolução Russa, mas não é um outubro qualquer -- é o centenário da revolução. Por isso, é muito pertinente avaliarmos sucessos e fracassos. Deixar de falar da Revolução Russa porque a União Soviética se esfacelou em 1991 parece ser uma tentativa de apagar a história.
Pra quem não sabe, antes da Revolução, que na realidade se deu em duas fases, em fevereiro e outubro, cem anos atrás, a Rússia vivia um modelo praticamente feudal, com uma monarquia comandada por um czar. 
Hoje considera-se que, sem as greves realizadas por mulheres operárias em fevereiro de 1917, a Revolução poderia não ter ocorrido. Tampouco teria acontecido se não fosse a 1a Guerra Mundial (e a imensa miséria causada por ela). Assim, com a intenção de acabar com a guerra e de lutar contra as opressões, a União Soviética se tornou o primeiro país socialista do mundo.
Volkov, 91 anos, neto de Leon Trotsky, falou anteontem (em vídeo apresentado no Congresso da Conlutas) da importância em "restabelecer a verdade histórica e deixar claro que o stalinismo é a antítese do comunismo e do socialismo, e vem sendo um dos maiores obstáculos".
Outra pessoa que falou no Congresso, através de um vídeo, foi a historiadora feminista americana Wendy Goldman, que lembrou que a Revolução Russa soube respeitar a questão das mulheres:
"Eles tiveram um dos programas mais radicais já vistos em respeito da emancipação das mulheres. Este programa ainda tem muita relevância. A ideia de mulheres emancipadas se baseou em três princípios básicos. O primeiro foi a ideia de amor livre, na qual nem o Estado, nem qualquer religião poderia atuar sobre os relacionamentos livres das pessoas. Para concretizar essa visão, tiveram que mudar aspectos da vida material. O primeiro foi que as mulheres precisavam ter independência financeira e autonomia. O segundo princípio era a total socialização do trabalho. Tarefas típicas de mulheres na época passaram a ser remuneradas. Finalmente, em 1920, a União Soviética tornou-se o primeiro país do mundo a legalizar o aborto".
Já em 1920 uma grande ativista, Aleksandra Kollontai, escrevia, mostrando que a Revolução também foi feminista: "O capitalismo colocou um fardo pesado sobre os ombros da mulher: a converteu em trabalhadora assalariada, sem reduzir seus cuidados como dona de casa ou mãe".
Para falar do centenário da Revolução Russa, convido o pessoal de Fortaleza para hoje, 17 de outubro, das 10h ao meio dia, comparecer a UFC. 
O socialismo foi/é uma alternativa a um sistema que concentra nas mãos de oito homens a riqueza de 3,6 bilhões de pessoas. Sim, é verdade: oito caras têm o mesmo patrimônio que metade da população mundial. Se você chama um modelo econômico desses de "sucesso", não quero nem ver o que você considera um fracasso.