sexta-feira, 24 de novembro de 2017

ODIADA NA NAÇÃO

A Ana Prado, editora do Guia do Estudante, está editando um especial sobre a série Black Mirror, que vai sair na Superinteressante (quando sair eu coloco o link). 
O episódio "Hated in the Nation" vai falar sobre ataques virtuais. Então ela me entrevistou por email. 
Como a entrevista ficou longa, e lógico que a revista só publicará um pedacinho, pedi a Ana se poderia reproduzi-la aqui. Taí!

1) Você recebe ameaças com frequência? Já chegaram a derrubar seu blog, não? Quando isso começou? Você mantém o blog “Escreva Lola Escreva” desde 2008, certo? Os ataques já começaram a aparecer nessa época?
Meu blog vai fazer dez anos em janeiro de 2018. Os trolls começaram imediatamente, mas eram trolls, e sei diferenciar ofensas de ataques e ameaças de morte e estupro. As ameaças começaram entre 2010 e 2011. Desde então, elas vem sendo muito frequentes, infelizmente.
Esta semana mesmo um rapaz de Aracaju chamado Arthur Lopes gravou um vídeo com um amigo que cobre parte do seu rosto. Primeiro ele me xinga de vagabunda, e, em seguida, o amigo diz: "Vou te matar quando for pra Fortaleza, tá ligado? Fica esperta aí, sua puta". Eu já fiz um boletim de ocorrência contra esse indivíduo que se julga tão acima da lei que faz ameaças de morte sem esconder o rosto ou o nome. Em 2016, ele deixou num chan uma foto do suposto revólver dele, com munição, e da passagem que ele havia comprado de Aracaju para Fortaleza. Ele viria aqui em casa (eles têm meu endereço residencial, o divulgam, divulgam imagens da fachada da minha casa, oferecem recompensas para quem me matar, ou matar meu marido), me matar e depois se suicidaria. 
Sobre chegarem a derrubar o blog, não foi exatamente isso. O que uma quadrilha misógina fez foi organizar um ataque orquestrado ao meu blog em janeiro. Enviaram milhares de denúncias, via robôs e script, contra o meu blog, que é hospedado pelo Blogspot, que é do Google. O Google acatou as denúncias e removeu a senha que eu tinha para acessar o meu blog. E, em seguida, foi eliminando todas as imagens do blog, inclusive a do cabeçalho, que tem uma foto minha quando criança. E foi muito difícil falar com um humano no Google, porque é tudo máquina. 
Tivemos que fazer uma campanha, #Google Não Censure A Lola, e enviar emails para o presidente do Google no Brasil, por exemplo. No final daquela semana uma pessoa do departamento judicial do Google me ligou, dizendo que realmente não havia qualquer infração no meu blog, e que eles devolveriam a senha e as imagens. Mas se recusaram a pedir desculpas públicas. Foi por pouco que um dos maiores blogs feministas do Brasil não foi derrubado por um grupinho de misóginos, com o aval de uma multinacional como o Google.

2) Como as ameaças e os ataques chegam até você? Você toma alguma providência para evitar se expor a elas (evitando o Facebook, por exemplo)?
Algumas ameaças chegam por email, outras por comentários não aprovados no meu blog, outras no Twitter. Eu não tenho Facebook porque não tenho tempo. Já gasto tempo demais na internet. A maior parte das ameaças vem de um chan (fórum anônimo) criado em 2013 por um rapaz em Curitiba que foi preso em 2012 e permaneceu mais de um ano na cadeia por seus crimes de ódio. Só que quando ele saiu, voltou a fazer exatamente o mesmo que antes, principalmente ameaçando e atacando pessoas e instituições. Ele e seus comparsas atacam juízas, delegadas, jornalistas, advogadas, professoras... Eu nunca saberia do chan se seu autor não tivesse me enviado o link várias vezes. 
Eu fico num dilema: vale a pena acompanhar as ameaças e planos de ataque (mesmo que boa parte dessas ameaças não serão concretizadas) ou deixar pra lá e correr o risco de ser pega de surpresa? Sinceramente, não sei. Mas estou cansada. São inúmeras denúncias, onze BOs, inquéritos abertos, e no mínimo quatro anos de ameaças ininterruptas, e nada é feito. Se a quadrilha não for presa em breve, creio que vou parar de acompanhar o que eles fazem. Isso não significa que vão parar de atacar a mim e a minha família, mas pelo menos vou dedicar parte do meu tempo a coisas mais produtivas. 

3) Imagino que isso hoje tenha se tornado "normal" para você, infelizmente. Você já se considera “acostumada” com isso? Como foi esse processo de lidar com os ataques?
Sim, é normal pra mim. É terrível que a gente tenha que se acostumar com esse tipo de ataque, mas a gente se acostuma. Na realidade, nunca me afetaram. Durmo bem à noite, não tenho medo. Não deixei de fazer nada por causa da quadrilha. Os ataques começaram quando eu já tinha mais de 45 anos. Eu já tinha casca grossa e maturidade suficientes para não me deixar abalar. 

4) Qual foi o episódio mais assustador que você já viveu?
Não tive episódios assustadores, porque nunca fui atacada fisicamente. Pelo contrário, nas palestras que dou por todo o Brasil, sou recebida com muito carinho e vários abraços. Mas alguns episódios são surreais, como um misógino gravar um vídeo (com a cara dele!) dizendo ser meu filho. Nunca vi o cara, nem sei o nome dele, e ele diz que eu queria abortá-lo quando fiquei sabendo que o feto era masculino, mas minha mãe não deixou. E que eu abandonei minha mãe e o bebê (ele) para me dedicar a essa "causa maligna" que é o feminismo. E se eu sou feminista, como posso abandonar minha mãe, que, segundo ele, está confinada a uma cadeira de rodas? O mais bizarro é que ele divulgou o vídeo no dia do aniversário da minha mãe, que mora comigo há vinte anos. 
Site de ódio mascu criado
no meu nome
Alguns emails são bem perturbadores também. Por exemplo, faz alguns meses recebi um email de um misógino que se sentiu ignorado por mim, já que eu não respondo a misóginos ou reaças. Então ele escreveu: "O problema é que eu tenho graves distúrbios psiquiátricos, um dos quais gera ondas de ódio quando sou ignorado. Neste momento estou sentindo vontade de te matar com meus dentes, morder o seu pescoço até você morrer de hemorragia. Vou ter que descontar este ódio no seu marido e na sua mãe". São coisas assim, muito doentias. Outro episódio assustador foi quando criaram um site de ódio no meu nome. Naquele site, diziam que eu havia realizado um aborto numa aluna em sala de aula na universidade! E teve gente que acreditou. A Ouvidoria da UFC recebeu denúncias contra mim. É absurdo. 

5) Quem são as pessoas que atacam você? Elas costumam se esconder atrás de fakes ou dão seus nomes reais? Você sabe quem são?
Uma boa parte eu sei quem são, tenho seus nomes, números de documentos e endereços. Dois deles, justamente os que foram presos em 2012, estão me processando por danos morais. ELES me atacam, me difamam, me ameaçam, e eles que me processam. As polícias (civil e federal) e a Abin têm os nomes deles e de muitos outros faz tempo. Não adianta muito eu processá-los porque eles não trabalham, não estudam, não têm nada no nome deles. Eles já são criminosos, então ficar com o nome inadimplente não faz diferença alguma na vida deles. Já as centenas de perfis no Twitter que me agridem (a maior parte sem necessariamente me ameaçar de morte) são quase todos fakes. É uma luta muito desigual, pois eu sou uma pessoa de verdade, com nome completo e fotos, e todo mundo sabe onde trabalho, e eles são covardes contando com o anonimato. Na vida real, cara a cara, eles não teriam coragem sequer de me dirigir a palavra.

6) Você já tomou alguma providência para coibir essas agressões virtuais?
Fiz onze boletins de ocorrência. Há um inquérito aberto na Delegacia da Mulher de Fortaleza. A Polícia Federal está investigando desde o Natal do ano passado, quando o reitor da Universidade Federal do Ceará, onde sou professora, recebeu um email dizendo que, se eu não fosse exonerada, haveria um massacre no campus. O reitor teria que optar entre despedir "esta porca imunda" (eu) ou "passar uma semana recolhendo pedaços de cadáveres de 300 pessoas". Obviamente, o reitor levou o email para a PF, e eu fui chamada para depor e passei meu HD e a senha do meu email para que a PF pudesse averiguar. Mas realmente não sei o que foi investigado neste quase um ano. 
A deputada federal Luizianne Lins (PT-CE) apresentou um projeto com nome de "Lei Lola", baseado no meu caso, exigindo que a PF investigue casos de ameaças a mulheres online. Eu torço para que a lei seja aprovada e, depois, cumprida, pois a verdade é que não temos proteção alguma. Tenho um email de um supervisor da PF dizendo que não iriam investigar as ameaças contra mim porque misoginia não é crime e a PF só investiga crimes em que o Brasil é signatário internacional, como racismo e pedofilia. 

7) Você teme pela sua integridade física? Que cuidados toma para se proteger fisicamente? Restringe suas aparições públicas, por exemplo, ou consegue fazer suas coisas normalmente?
Não temo pela minha integridade física. Se eu morasse em São Paulo ou em alguma cidade do Sul (em Joinville, por exemplo, onde vivi até 2009), talvez eu ficasse mais receosa, pois lá a quantidade de neonazistas é infinitamente maior. Mas acho que no Nordeste estou bastante segura. Claro, tem vezes que vou dar alguma palestra em outra cidade e recebo ameaças, e fico na dúvida se devo ou não avisar a instituição ou a polícia ou ignorar. 

8) Por que você acha que pautas como o feminismo e os direitos humanos despertam tanto ódio? Acredita que um dia isso irá mudar?
Quem me ataca e ameaça são homens realmente perturbados, preconceituosos, anti-sociais, que odeiam suas vidas e culpam as mulheres, principalmente as feministas, por todos os seus fracassos. Eles nasceram num mundo machista, a grande maioria vem de famílias machistas, e, por nascerem homens, foi-lhes prometido que teriam vários privilégios. Mas aí eles crescem e percebem que, apesar dos privilégios, terão que competir com mulheres por vagas em faculdades e por empregos. E eles perdem nessa competição. 
Além do mais, por serem preconceituosos, afastam as pessoas, especialmente as mulheres. E sentem-se muito mal por terem que pagar para transar, porque é o único jeito que conseguem fazer sexo. Se qualquer garota é minimamente simpática com eles, eles se apaixonam. E não sabem lidar com a rejeição. Eles sonham com a volta a uma sociedade totalmente patriarcal, sem feminismo. Não é nem que eles querem voltar aos anos 1950. Na realidade, querem voltar aos tempos das cavernas, ou à imagem deturpada que eles têm dos tempos das cavernas, em que um um neandertal batia com uma clave numa mulher e a arrastava para sua caverna pelos cabelos. 
Sobre direitos humanos, fascistas nem sabem o que são direitos humanos, e vivem repetindo clichês como “direitos humanos para humanos direitos”. Acham que direitos humanos protegem criminosos, criminosos que essas pessoas fascistas gostariam que fossem exterminadas sem julgamento (desde que não sejam criminosos de colarinho branco ou filhinhos de papai). A verdade é que direitos humanos protegem todos os humanos. E acho que é isso que revolta os fascistas -- pra eles, só os “cidadãos de bem” é que merecem direitos. E eles põem no mesmo barco criminosos e ativistas de direitos humanos. Pra eles, uma ativista como eu sou criminosa. Eles vivem falando que me colocarão na cadeia. Por qual motivo, ninguém sabe. Por discordarem do que escrevo, imagino.

9) O que você acha que motiva as pessoas a atacarem outras pela internet – não só aquelas que defendem causas como o feminismo, mas todas as outras?
Tem um cartum que eu adoro do André Dahmer, dos Malvados, em que um carinha xinga outro, e o alvo pergunta: “O que é, cara, ficou doido?” E o agressor responde: “Desculpa, esqueci que não estava na internet”. 
Portanto, o principal motivo é que as pessoas se sentem protegidas pelo anonimato para falarem as piores atrocidades. Elas pensam que a internet é terra de ninguém mesmo. Acho que são pessoas que promoveram bastante bullying na escola e não superaram a fase. Então, ao xingar uma mulher de baleia, de burra, de chata, de puta (porque eles geralmente alvejam mulheres), eles se lembram dos bons tempos de bullying e, além do mais, têm a ilusão de fazer parte de um grupo, que se une através do ódio.

10) Isso já fez com que você pensasse em desistir de escrever e de defender publicamente suas opiniões? Por que você acha que vale a pena continuar?
Imagino que qualquer pessoa que tem um blog há tanto tempo quanto eu (quase uma década!) já pensou em desistir inúmeras vezes. Eu não penso tanto em desistir por causa dos ataques, é mais por causa da falta de tempo mesmo. Eu fico pensando em todo tempo que eu teria livre se não tivesse o blog. Sobraria tempo pra ler mais, pra publicar livros e artigos acadêmicos, pra minha vida pessoal. Seria ótimo! Mas eu escrevo faz muito tempo, desde criança, e é muito difícil me imaginar sem expor minhas opiniões. Além do mais, se eu largasse o blog, eu não teria mais como me defender. E eles continuariam me atacando. Eles vivem para nos silenciar. Cada vez que um blog, um vlog, uma página feminista no FB fecha, ou mesmo um perfil no Twitter é trancado, eles comemoram como uma grande vitória. 

11) O que você diria para quem também é vítima de perseguições virtuais? Que atitudes as vítimas podem tomar para se proteger? Vejo que na maioria dos casos as vítimas de sentem desprotegidas e sozinhas. O que você aconselha também em relação a isso?
Não tem muito o que fazer. Realmente estamos desprotegidas. O melhor seja talvez ignorar os ataques, não ter medo. Não é possível denunciar todas as ameaças. Se eu fizesse isso, não sairia da delegacia. Às vezes vale a pena expor algumas ameaças, para que as pessoas saibam o que você passa e o nível de insanidade e ódio a que as ativistas estão sujeitas. E às vezes eu acho que somos passivas demais. O que nos impede, além da nossa ética, de atacá-los como eles nos atacam? Não ameaçá-los de morte ou estupro, mas, por exemplo, por que não colocar o nome e celular deles em sites de swing e prostituição, como eles fazem conosco? 
Por que não enviar emails para os chefes daqueles poucos misóginos que são empregados, e contar a eles o que seus funcionários defendem (legalização da pedofilia e do estupro, estupro corretivo para lésbicas, assassinato de negros, gays e mulheres, defesa de massacres em escolas e universidades)? Por que não criar um grupo de feministas hackers, só pra nos defendermos e atacar as quadrilhas de misóginos que nos atacam? Capacidade pra isso certamente muitas mulheres que trabalham com TI tem. Esta é minha opinião, a opinião de uma ativista que vem sendo atacada incessantemente há mais de seis anos e que já tentou todas as vias legais para coibir esses ataques. É importante que a gente se junte e seja forte.

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

MACHISMO NAS FACULDADES DE MEDICINA

Recebi ontem este email da N.

Boa tarde Lola, primeiramente gostaria de parabenizá-lá pelo seu maravilhoso blog. Mulheres como você são uma inspiração para todas nós! 
Lola, sou uma estudante de medicina de uma faculdade num estado do Sudeste e estou já no final do curso, o que quer dizer que já conheço bem como funciona a medicina e os hospitais. E cada dia mais me choco com o machismo dos professores e médicos, sobretudo dos médicos homens. 
Eu e minhas colegas de classe, que aliás somos a maioria, já escutamos que não devemos ser cirurgiãs porque cirurgia não é coisa de mulher, que devemos escolher áreas que não atrapalhem nossa vida (que, segundo eles, resume-se a casar e ter filhos). 
Na minha sala de aula somos na maioria mulheres, mas não chega a ser tão discrepante quanto na enfermagem. Nas salas de cirurgia ainda tem poucas mulheres e acho que é sobretudo por conta das pressões que nós mulheres temos de casar, ter filhos e ter de fazer tudo sozinhas. 
Uma vez, vi uma residente muito estressada desabafando no elevador. Ela tinha feito um plantão de 48 horas e quando chegou em casa seu parceiro tinha deixado a casa um lixo e ela que teve de arrumar. Lola, o cara conseguiu ferrar a casa em 48 horas. Ela trabalhou 48 horas seguidas e agora tinha de resolver isso! 
Já escutei de um colega de classe que ele só iria consultar uma urologista mulher (como todos sabem, urologista é médico que trata vias urinárias e órgão genital masculino) se ela fosse muito boa, porque óbvio que mulheres não podem entender mais do pênis deles do que eles, nem podem tratar impotência sexual. Mas ginecologista homem, tudo bem pra esse colega!
O pior de tudo é que o chefe aqui do hospital é casado também com uma médica, e todos o consideram o pica das galáxias, apesar de ele ser para mim um traste. E ela é sempre relegada ao segundo plano e vista como ruim. Já percebi que o relacionamento deles parece ser um pouco abusivo, do tipo: "Eu sou o foda, e você deve sempre me escutar". Uma vez ela questionou uma conduta dele de ter dado alta para uma paciente. Primeiro ele respondeu negando que tivesse sido ele (típico de homem). Ela lhe mostrou a assinatura dele e ele simplesmente virou as costas e saiu andando.
Eu moro com uma amiga também da medicina e o sonho dela é ser cardiologista. Recentemente ela estava passando por um estágio em cardiologia e o professor perguntou quem queria ser cardiologista. Ela e um colega levantaram a mão. A partir desse dia o professor a desconsiderou completamente, fazia perguntas "ao futuro cardiologista" e nem olhava na cara dela. Pode isso, Lola?
A verdade é que desde que entramos na medicina já nos dizem que tal e tal especialidade não é boa para mulheres. Quando insistimos, nos olham com maus olhos.
Estou desanimada. Como posso construir uma carreira na medicina sendo eclipsada assim pelos homens? Já escutei de residentes mulheres que desistiram da neurocirurgia por que eram deixadas de lado e obrigadas a buscar café para os homens. Eles riem das nossas condutas, desconsideram o que a gente fala e parece sempre que temos que provar algo.
Desculpe o desabafo, mas creio que você irá me compreender.
A luta continua! Não vou desistir. 


Meu comentário: Obrigada pela mensagem e pelo carinho, N.! O machismo nas faculdades de medicina é conhecido, e talvez por isso seria tão importante ter alguma disciplina sobre gênero na universidade. Até porque o machismo de colegas e professores médicos não afeta apenas as estudantes mulheres, mas as pacientes também. Afinal, se um colega ou um médico vê com preconceito uma aluna e a discrimina ou ignora, é bem provável que ele se comporte assim com as mulheres que ele terá que atender. 
E, se uma faculdade -- um lugar pra educar -- não apenas não modifica esses pensamentos e atitudes machistas, como também os incentiva, tem algo de muito errado nesses cursos (e na profissão). 
Mas são pessoas como você, N., e tantas outras que persistem, que iremos mudar esse quadro. Não tem volta!

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

SOBRE O SENTIMENTO DE MERECIMENTO DOS HOMENS

Recentemente publiquei um texto sobre a minha descoberta de que 1984, um clássico da distopia escrito por George Orwell, é bem machista. Teve comentários excelentes no texto. 
Mas vi uma única parte do livro em que o protagonista Winston questiona o seu "entitlement" -- seu sentimento de que ele merecia muitas coisas boas na vida simplesmente por ter nascido homem. É esta, quando ele se lembra da sua infância, em que ele, sua mãe e irmã pequena passavam fome (a tradução é minha, porque só tenho o livro em inglês):

"Ele perguntava pra sua mãe, insistentemente, por que não havia mais comida; ele gritava com ela, ou ele tentava acrescentar um pouco de doença em seus esforços para ganhar mais que a sua parte. Sua mãe estava pronta para dar-lhe mais que a sua parte. Para ela era natural que ele, 'o menino', deveria ganhar a maior porção, mas independente de quanto a mais ela lhe dava, ele invariavelmente exigia mais. Em toda refeição ela lhe dizia para não ser egoísta e para lembrar que sua irmãzinha estava doente e também precisava comer, mas não adiantava. Ele chorava de ódio quando ela parava de servir, ele tentava tirar a panela e colher de suas mãos, ele pegava pedaços do prato de sua irmã. Ele sabia que estava deixando as duas famintas, mas ele não podia evitar; ele até achava que tinha um direito para fazê-lo".

Achei uma descrição incrível desse sentimento que tantos homens aprendem desde bebês. E me lembrou muito o que uma professora da PUC-Goiás contou numa mesa-redonda de que participei. 
Ela conheceu uma mulher humilde no campo que estava começando a descobrir que tinha direitos. 
Essa mulher reparou, por si mesma, que sempre que matava uma galinha, dava automaticamente as melhores partes para o marido e os filhos homens, sem nem pensar. Ela e as filhas ficavam com os restos, o pescoço, os pés, o que sobrava.
Vc tem o q chamamos de um senso
irracional de merecimento. Não vai
te matar, mas vai fazer que vc creia
que merece coisas por não fazer nada
E ninguém falava nada, pois era visto como totalmente natural. Mas lógico que não é natural. Desde muito cedo o mundo nos ensina que a vida de um homem vale mais. Os homens aprendem isso. Winston aprendeu bem.
Parte do ódio que alguns homens têm das mulheres acontece quando essa sensação de entitlement não se concretiza. Apesar de todos os privilégios, nem sempre um cara vai conseguir conquistar tudo que ele acha que merece por direito divino.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

JUDITH BUTLER: "NÃO É UMA IDEOLOGIA"

Dia tranquilo em Tucanistão

Reproduzo aqui no blog o excelente artigo que Judith Butler escreveu para a Folha de S. Paulo, com tradução de Clara Allain. 
(E olha que maravilha: a filósofa disponibilizou todos os seus livros para baixar. Aqui).

Desde o começo, a oposição à minha presença no Brasil esteve envolta em uma fantasia. Um abaixo-assinado pedia ao Sesc Pompeia que cancelasse uma palestra que eu nunca iria ministrar. A palestra imaginária, ao que parece, seria sobre "gênero", embora o seminário planejado fosse dedicado ao tema "Os fins da democracia" ("The ends of democracy").
Ou seja, havia desde o início uma palestra imaginada ao invés de um seminário real, e a ideia de que eu faria uma apresentação, embora eu estivesse na realidade organizando um evento internacional sobre populismo, autoritarismo e a atual preocupação de que a democracia esteja sob ataque.
Não sei ao certo que poder foi conferido à palestra sobre gênero que se imaginou que eu daria. Deve ter sido uma palestra muito poderosa, já que, aparentemente, ela ameaçou a família, a moral e até mesmo a nação.
Para aqueles que se opuseram à minha presença no Brasil, "Judith Butler" significava apenas a proponente de uma ideologia de gênero, a suposta fundadora desse ponto de vista absurdo e nefasto, alguém — aparentemente — que não acredita em restrições sexuais, cuja teoria destrói ensinamentos bíblicos e contesta fatos científicos.
Como tudo isso aconteceu e o que isso significa?
A TEORIA
Consideremos o que eu de fato escrevi e no que de fato acredito e comparemos isso com a ficção interessante e nociva que deixou tanta gente alarmada.
No final de 1989, quase 30 anos atrás, publiquei um livro intitulado "Gender Trouble" (lançado em português em 2003 como "Problemas de Gênero: Feminismo e Subversão da Identidade", Civilização Brasileira), no qual propus uma descrição do caráter performativo do gênero. O que isso significa?
A cada um de nós é atribuído um gênero no nascimento, o que significa que somos nomeados por nossos pais ou pelas instituições sociais de certas maneiras.
Às vezes, com a atribuição do gênero, um conjunto de expectativas é transmitido: esta é uma menina, então ela vai, quando crescer, assumir o papel tradicional da mulher na família e no trabalho; este é um menino, então ele assumirá uma posição previsível na sociedade como homem.
No entanto, muitas pessoas sofrem dificuldades com sua atribuição —são pessoas que não querem atender aquelas expectativas, e a percepção que têm de si próprias difere da atribuição social que lhes foi dada.
A dúvida que surge com essa situação é a seguinte: em que medida jovens e adultos são livres para construir o significado de sua atribuição de gênero?
Eles nascem na sociedade, mas também são atores sociais e podem trabalhar dentro das normas sociais para moldar suas vidas de maneira que sejam mais vivíveis.
E instituições sociais, incluindo instituições religiosas, escolas e serviços sociais e psicológicos, também deveriam ter capacidade de apoiar essas pessoas em seu processo de descobrir como viver melhor com seu corpo, buscar realizar seus desejos e criar relações que lhes sejam proveitosas.
Algumas pessoas vivem em paz com o gênero que lhes foi atribuído, mas outras sofrem quando são obrigadas a se conformar com normas sociais que anulam o senso mais profundo de quem são e quem desejam ser. Para essas pessoas é uma necessidade urgente criar as condições para uma vida possível de viver.
LIBERDADE E NATUREZA
Assim, em primeiro lugar e acima de tudo, "Problemas de Gênero" buscou afirmar a complexidade de nossos desejos e identificações de gênero e se juntar àqueles integrantes do movimento LGBTQ moderno que acreditavam que uma das liberdades fundamentais que precisam ser respeitadas é a liberdade de expressão de gênero.
O livro negou a existência de uma diferença natural entre os sexos? De maneira nenhuma, embora destaque a existência de paradigmas científicos divergentes para determinar as diferenças entre os sexos e observe que alguns corpos possuem atributos mistos que dificultam sua classificação.
Também afirmei que a sexualidade humana assume formas diferentes e que não devemos presumir que o fato de sabermos o gênero de uma pessoa nos dá qualquer pista sobre sua orientação sexual. Um homem masculino pode ser heterossexual ou gay, e o mesmo raciocínio se aplica a uma mulher masculina.
Nossas ideias de masculino e feminino variam de acordo com a cultura, e esses termos não possuem significados fixos. Eles são dimensões culturais de nossas vidas que assumem formas diferentes e renovadas no decorrer da história e, como atores históricos, nós temos alguma liberdade para determinar esses significados.
Mas o objetivo dessa teoria era gerar mais liberdade e aceitação para a gama ampla de identificações de gênero e desejos que constitui nossa complexidade como seres humanos.
Esse trabalho, e muito do que desenvolvi depois, também foi dedicado à crítica e à condenação da violação e da violência corporais.
Além disso, a liberdade de buscar uma expressão de gênero ou de viver como lésbica, gay, bissexual, trans ou queer (essa lista não é exaustiva) só pode ser garantida em uma sociedade que se recusa a aceitar a violência contra mulheres e pessoas trans, que se recusa a aceitar a discriminação com base no gênero e que se recusa a transformar em doentes e aviltar as pessoas que abraçaram essas categorias no intuito de viverem uma vida mais vivível, com mais dignidade, alegria e liberdade.
Meu compromisso é me opor às ofensas que diminuam as chances de alguém viver com alegria e dignidade. Assim, sou inequivocamente contra o estupro, o assédio e a violência sexual e contra todas as formas de exploração de crianças.
Liberdade não é — nunca é — a liberdade de fazer o mal. Se uma ação faz mal a outra pessoa ou a priva de liberdade, essa ação não pode ser qualificada como livre —ela se torna uma ação lesiva.
VIOLÊNCIA DE GÊNERO
De fato, algo que me preocupa é a frequência com que pessoas que não se enquadram nas normas de gênero e nas expectativas heterossexuais são assediadas, agredidas e assassinadas.
As estatísticas sobre feminicídio ilustram o ponto. Mulheres que não são suficientemente subservientes são obrigadas a pagar por isso com a vida.
Pessoas trans e travestis que desejam apenas a liberdade de movimentar-se no mundo público como são e desejam ser sofrem frequentemente ataques físicos são mortas.
Mães correm o risco de perder seus filhos se eles saírem do armário; muitas pessoas ainda perdem seus empregos e a relação com seus familiares quando saem do armário. O sofrimento social e psicológico decorrente do ostracismo e condenação social é enorme.
A injustiça radical do feminicídio deveria ser universalmente condenada, e as transformações sociais profundas que possam tornar esse crime impensável precisam ser fomentadas e levadas adiante por movimentos sociais e instituições que se recusam a permitir que pessoas sejam mortas devido a seu gênero e sua sexualidade.
No Brasil, uma mulher é assassinada a cada duas horas. A tortura e o assassinato recente de Dandara dos Santos, em Fortaleza, foi apenas um exemplo explícito da matança generalizada de pessoas trans no Brasil, uma matança que valeu ao Brasil a fama de ser o país mais conhecido pelo assassinato de pessoas LGBT.
São esses os males sociais inequívocos e atrocidades aos quais me oponho, e meu livro —bem como o movimento queer no qual ele se insere — procura promover um mundo sem sofrimento e violência desse tipo.
IDEOLOGIA
A teoria da performatividade de gênero busca entender a formação de gênero e subsidiar a ideia de que a expressão de gênero é um direito e uma liberdade fundamentais. Não é uma "ideologia".
Em geral, uma ideologia é entendida como um ponto de vista que é tanto ilusório quanto dogmático, algo que "tomou conta" do pensamento das pessoas de uma maneira acrítica.
Meu ponto de vista, entretanto, é crítico, pois questiona o tipo de premissa que as pessoas adotam como certas em seu cotidiano, e as premissas que os serviços médicos e sociais adotam em relação ao que deve ser visto como uma família ou considerado uma vida patológica ou anormal.
Quantos de nós ainda acreditamos que o sexo biológico determina os papéis sociais que devemos desempenhar? Quantos de nós ainda sustentamos que os significados de masculino e feminino são determinados pelas instituições da família heterossexual e da ideia de nação que impõe uma noção conjugal do casamento e da família?
Famílias queers e travestis adotam outras formas de convívio íntimo, afinidade e apoio. Mães solteiras têm laços de afinidade diferentes. A mesma coisa se dá com famílias mistas, nas quais as pessoas se casam novamente ou se juntam com famílias, criando amálgamas muito diferentes daqueles vistos em estruturas familiares tradicionais.
Encontramos apoio e afeto através de muitas formas sociais, incluindo a família, mas a família é também uma formação histórica: sua estrutura e seu significado mudam ao longo do tempo e do espaço. Se deixamos de afirmar isso, deixamos de afirmar a complexidade e a riqueza da existência humana.
IGREJA
A ideia de gênero como ideologia foi introduzida por Joseph Ratzinger em 1997, antes de ele se tornar o papa Bento 16. O trabalho acadêmico de Richard Miskolci e Maximiliano Campana acompanha a recepção desse conceito em diversos documentos do Vaticano (MISKOLCI, Richard; CAMPANA, Maximiliano. "Direito às diferenças: notas sobre formação jurídica e as demandas de reconhecimento na sociedade brasileira contemporânea". "Hendu "" Revista Latino-Americana de Direitos Humanos", abril de 2017).
Em 2010, o argentino Jorge Scala lançou um livro intitulado "La Ideologia de Género", que foi traduzido ao português por uma editora católica [Katechesis]. Esse pode ter sido um ponto de virada para as recepções de "gênero" no Brasil e na América Latina.
De acordo com a caricatura feita por Scala, aqueles que trabalham com gênero negam as diferenças naturais entre os sexos e pensam que a sexualidade deve ser livre de qualquer restrição. Aqueles que se desviam da norma do casamento heterossexual são considerados indivíduos que rejeitam todas as normas.
Vista por essa lente, a teoria de gênero não só nega as diferenças biológicas como gera um perigo moral.
No aeroporto de Congonhas, em São Paulo, uma das mulheres que me confrontaram começou a gritar coisas sobre pedofilia. Por que isso? É possível que ela pense que homens gays são pedófilos e que o movimento em favor dos direitos LGBTQI nada mais é do que propaganda pró-pedofilia.
Então fiquei pensando: por que um movimento a favor da dignidade e dos direitos sexuais e contra a violência e a exploração sexual é acusado de defender pedofilia se, nos últimos anos, é a Igreja Católica que vem sendo exposta como abrigo de pedófilos, protegendo-os contra processos e sanções, ao mesmo tempo em que não protege suas centenas de vítimas?
Será possível que a chamada ideologia de gênero tenha virado um espectro simbólico de caos e predação sexual precisamente para desviar as atenções da exploração sexual e corrupção moral no interior da Igreja Católica, uma situação que abalou profundamente sua autoridade moral?
Será que precisamos compreender como funciona "projeção" para compreendermos como uma teoria de gênero pôde ser transformada em "ideologia diabólica"?
BRUXAS
Talvez aqueles que queimaram uma efígie minha como bruxa e defensora dos trans não sabiam que aquelas que eram chamadas de bruxas e queimadas vivas eram mulheres cujas crenças não se enquadravam nos dogmas aceitos pela Igreja Católica.
Ao longo da história, atribuíram-se às bruxas poderes que elas jamais poderiam, de fato, ter; elas viraram bodes expiatórios cuja morte deveria, supostamente, purificar a comunidade da corrupção moral e sexual.
Considerava-se que essas mulheres tinham cometido heresia, que adoravam o diabo e tinham trazido o mal à comunidade em lugares como Salem (EUA), em Baden-Baden (Alemanha), nos Alpes Ocidentais (Áustria) e na Inglaterra. Com muita frequência esse "mal" era representado pela libertinagem.
O fantasma dessas mulheres como o demônio ou seus representantes encontra, hoje, eco na "diabólica" ideologia de gênero. E, no entanto, a tortura e o assassinato dessas mulheres por séculos como bruxas representaram um esforço para reprimir vozes dissidentes, aquelas que questionavam certos dogmas da religião.
Quem pôs fim a esse tipo de perseguição, crueldade e assassinato foram pessoas sensatas de dentro da Igreja Católica, que insistiram que a queima de bruxas não representava os verdadeiros valores cristãos. Afinal, queimar bruxas era uma forma de feminicídio executado em nome de uma moralidade e ortodoxia.
Embora eu não seja estudiosa do cristianismo, entendo que uma de suas grandes contribuições tenha sido a doutrina do amor e do apreço pela preciosidade da vida —muito longe do veneno da caça às bruxas.
DEMOCRACIA
Embora apenas minha efígie tenha sido queimada, e eu mesma tenha saído ilesa, fiquei horrorizada com a ação.
Nem tanto por interesse próprio, mas em solidariedade às corajosas feministas e pessoas queer no Brasil que estão batalhando por maior liberdade e igualdade, que buscam defender e realizar uma democracia na qual os direitos sexuais sejam afirmados e a violência contra minorias sexuais e de gênero seja abominada.
Aquele gesto simbólico de queimar minha imagem transmitiu uma mensagem aterrorizante e ameaçadora para todos que acreditam na igualdade das mulheres e no direito de mulheres, gays e lésbicas, pessoas trans e travestis serem protegidos contra violência e assassinato.
Pessoas que acreditam no direito dos jovens exercerem a liberdade de encontrar seu desejo e viverem num mundo que se recusa a ameaçar, criminalizar, patologizar ou matar aqueles cuja identidade de gênero ou forma de amar não fere ninguém.
Essa é a visão do arcebispo Justin Welby, da Inglaterra, que destacou recentemente o direito dos jovens explorarem sua identidade de gênero, apoiando uma atitude mais aberta e acolhedora em relação a papéis de gênero na sociedade.
Essa abertura ética é importante para uma democracia que inclua a liberdade de expressão de gênero como uma das liberdades democráticas fundamentais, que enxergue a igualdade das mulheres como peça essencial de um compromisso democrático com a igualdade e que considere a discriminação, o assédio e o assassinato como fatores que enfraquecem qualquer política que tenha aspirações democráticas.
Talvez o foco em "gênero" não tenha sido, no final, um desvio da pergunta de nosso seminário: quais são os fins da democracia?
Quando violência e ódio se tornam instrumentos da política e da moral religiosa, então a democracia é ameaçada por aqueles que pretendem rasgar o tecido social, punir as diferenças e sabotar os vínculos sociais necessários para sustentar nossa convivência aqui na Terra.
Eu vou me lembrar do Brasil por todas as pessoas generosas e atenciosas, religiosas ou não, que agiram para bloquear os ataques e barrar o ódio.
São elas que parecem saber que o "fim" da democracia é manter acesa a esperança por uma vida comum não violenta e o compromisso com a igualdade e a liberdade, um sistema no qual a intolerância não se transforma em simples tolerância, mas é superada pela afirmação corajosa de nossas diferenças.
Então todos começaremos a viver, a respirar e a nos mover com mais facilidade e alegria  — é esse o objetivo maior da corajosa luta democrática que tenho orgulho de integrar: nos tornarmos livres, sermos tratados como iguais e vivermos juntos sem violência.

JUDITH BUTLER, 61, referência nos estudos de gênero e teoria queer, é codiretora do programa de teoria crítica da Universidade da Califórnia em Berkeley. Lança o livro "Caminhos Divergentes: Judaicidade e Crítica do Sionismo" pela Boitempo.